terça-feira, 1 de abril de 2025

Um senhor muito velho


Um senhor muito velho com umas asas muito grandes
por Gabriel García Márquez
"No terceiro dia de chuva tinham matado tantos caranguejos dentro de casa que Pelayo teve de atravessar o seu pátio inundado para atirá‑los ao mar, pois o bebé recém‑nascido tinha passado a noite com febre e pensava‑se que era por causa da pestilência. O mundo estava triste desde terça‑feira. O céu e o mar eram uma única e mesma coisa de cinza e as areias da praia, que em Março resplandeciam como poeira de luz, tinham‑se transformado numa papa de lodo e mariscos podres. A luz era tão fraca ao meio‑dia que, quando Pelayo regressava a casa depois de ter deitado fora os caranguejos, teve dificuldade em ver o que era que se movia e gemia no fundo do pátio. Teve de aproximar‑se muito, para descobrir que era um homem velho, que estava caído de borco no lodaçal e que, apesar dos seus grandes esforços, não podia levantar‑se, porque lho impediam as suas enormes asas.
Assustado por aquela visão aflitiva, Pelayo correu em busca de Elisenda, sua mulher, que estava a pôr compressas ao bebé doente, e levou‑a até ao fundo do pátio. Ambos observaram o corpo caído com um silencioso pasmo. Estava vestido como um trapeiro. Não lhe restavam mais do que uns fiapos descoloridos no crânio pelado e pouquíssimos dentes na boca, e essa lastimosa condição de bisavô ensopado tinha‑o desprovido de qualquer grandeza. As suas asas de abutre velho, sujas e meio depenadas, estavam encalhadas para sempre no lodaçal. Tanto o observaram, e com tanta atenção, que Pelayo e Elisenda muito rapidamente se recompuseram do assombro e acabaram por achá‑lo familiar. Então atreveram‑se a falar‑lhe, e ele respondeu‑lhes num dialecto incompreensível, mas com uma boa voz de navegante. Foi por isso que deixaram de preocupar‑se com o inconveniente das asas e chegaram à sensata conclusão de que era um náufrago solitário de algum navio estrangeiro, desfeito pelo temporal. Contudo, chamaram, para que o visse, uma vizinha que sabia todas as coisas da vida e da morte, e a ela chegou‑lhe um olhar para tirá‑los do engano.
‑ É um anjo ‑ disse‑lhes. ‑ Com certeza vinha por causa da criança, mas o desgraçado está tão velho que a chuva o fez cair.
No dia seguinte toda a gente sabia que em casa de Pelayo tinham cativo um anjo de carne e osso. Contra o critério da vizinha sábia, para quem os anjos destes tempos eram sobreviventes fugitivos de uma conspiração celestial, não tinham tido coragem para matá‑lo à paulada. Pelayo esteve toda a tarde a vigiá‑lo, da cozinha, armado com o seu garrote de aguazil, e, antes de deitar‑se, tirou‑o de rastros do lodaçal e fechou‑o com as galinhas no galinheiro alambrado. À meia‑noite, quando terminou a chuva, Pelayo e Elisenda continuavam a matar caranguejos. Pouco depois o menino acordou, sem febre e com desejos de comer. Então sentiram‑se magnânimos e decidiram pôr o anjo numa balsa com água doce e provisões para três dias e abandoná‑lo à sua sorte no mar alto. Mas, quando foram ao pátio com as primeiras claridades, encontraram toda a vizinhança em frente do galinheiro, divertindo‑se com o anjo, sem a menor devoção e a atirar‑lhe coisas para comer pelos buracos dos alambres, como se não se tratasse de uma criatura sobrenatural, mas sim de um animal de circo.
O padre Gonzaga chegou antes das sete, alarmado pela desproporção da notícia. A essa hora já tinham acorrido curiosos menos frívolos que os do amanhecer e tinham feito toda a espécie de suposições sobre o futuro do cativo. Os mais simples pensavam que seria nomeado alcaide do mundo. Outros, de espírito mais austero, supunham que seria promovido a general de cinco estrelas, para que ganhasse todas as guerras. Alguns visionários esperavam que fosse conservado como reprodutor, para implantar na Terra uma estirpe de homens alados e sábios que se encarregassem do universo. Mas o padre Gonzaga, antes de ser cura, tinha sido lenhador vigoroso. Chegado aos alambres, fez uma rápida revisão do seu catecismo, e, entretanto, pediu que lhe abrissem a porta, para examinar de perto aquele varão de lástima que mais parecia uma enorme galinha decrépita entre as galinhas absortas. Estava deitado num canto, secando ao sol as asas estendidas, entre as cascas de frutas e as sobras de pequenos‑almoços que lhe tinham atirado os madrugadores. Alheio às impertinências do mundo, mal levantou os seus olhos de antiquário e murmurou alguma coisa no seu dialecto quando o padre Gonzaga entrou no galinheiro e lhe deu os bons‑dias em latim. O pároco teve a primeira suspeita da sua impostura ao verificar que não compreendia a língua de Deus nem sabia cumprimentar os seus ministros. A seguir, observou que, visto de perto, tinha a aparência demasiado humana: tinha um insuportável odor de intempérie, o avesso das asas semeado de algas parasitárias e as penas maiores maltratadas por ventos terrestres, e nada da sua natureza miserável estava de acordo com a egrégia dignidade dos anjos. Então abandonou o galinheiro e, com um breve sermão, preveniu os curiosos contra os riscos da ingenuidade. Recordou‑lhes que o Demónio tinha o mau hábito de servir‑se de artifícios de Carnaval para confundir os incautos. Argumentou que, se as asas não eram o elemento essencial para determinar as diferenças entre um gavião e um aeroplano, muito menos o podiam ser para reconhecer os anjos. No entanto, prometeu escrever uma carta ao seu bispo, para que este escrevesse outra ao seu primaz e para que este escrevesse outra ao Sumo Pontífice, de maneira que o veredicto final viesse dos tribunais mais altos. A sua prudência caiu em corações estéreis. A notícia do anjo cativo divulgou‑se com tanta rapidez que ao cabo de poucas horas havia no pátio um alvoroço de mercado, e tiveram de levar a tropa, com baionetas, para espantar o tumulto, que já estava quase a deitar a casa abaixo. Elisenda, com o espinhaço torcido de tanto varrer lixo de feira, teve então a boa ideia de taipar o pátio e receber cinco centavos pela entrada para ver o anjo.
Vieram curiosos até da Martinica. Veio uma feira ambulante com um acrobata voador, que passou a zumbir várias vezes por cima da multidão, mas ninguém lhe ligou importância, porque as suas asas não eram de anjo, mas de morcego sideral. Vieram em busca de saúde os doentes mais infelizes do Caribe: uma pobre mulher que desde criança estava a contar os latejos do seu coração e já não tinha números que lhe chegassem, um jamaicano que não podia dormir porque o atormentava o ruído das estrelas, um sonâmbulo que se levantava de noite para desfazer as coisas que tinha feito acordado, e muitos outros de menor gravidade. No meio daquela desordem de naufrágio que fazia tremer a terra, Pelayo e Elisenda estavam felizes de cansaço, porque em menos de uma semana atulhavam de dinheiro os quartos de dormir, e, todavia, a fila de peregrinos que esperavam vez para entrar chegava até ao outro lado do horizonte.
O anjo era o único que não participava do seu próprio acontecimento. O tempo ia‑se‑lhe em procurar acomodação no seu ninho emprestado, aturdido pelo calor de inferno das lamparinas de azeite e das velas de sacrifício que lhe encostavam aos alambres. Ao princípio insistiram para que comesse cristais de cânfora, que, de acordo com a sabedoria da vizinha sábia, era o alimento específico dos anjos. Mas ele desprezava‑os, como desprezou, sem os provar, os almoços papais que lhe levavam os penitentes, e nunca se soube se foi por ser anjo ou por ser velho que acabou por comer nada mais que papas de beringela. A sua única virtude sobrenatural parecia ser a paciência. Sobretudo nos primeiros tempos, quando o espiolhavam as galinhas em busca dos parasitas estelares que proliferavam nas suas asas e os aleijados lhe arrancavam penas, para tocar com elas nos seus defeitos, e até os mais piedosos lhe atiravam pedras, tentando conseguir que se levantasse, para vê‑lo de corpo inteiro. A única vez que conseguiram perturbá‑lo foi quando lhe queimaram as costas com um ferro de marcar novilhos, porque havia tantas horas que estava imóvel que pensaram que estava morto. Acordou sobressaltado, disparatando em língua hermética e com os olhos em lágrimas, e bateu as asas duas vezes, o que provocou um remoinho de estrume de galinheiro e pó lunar e um vendaval de pânico que não parecia deste mundo. Apesar de muitos terem ficado convencidos de que a sua reacção não tinha sido de raiva, mas sim de dor, desde esse dia trataram de não o incomodar, porque a maioria compreendeu que a sua passividade não era a de um herói em gozo de boa reforma, mas a de um cataclismo em repouso.O padre Gonzaga enfrentou a frivolidade da multidão com fórmulas de inspiração doméstica, enquanto lhe chegava um parecer decisivo sobre a natureza do cativo. Mas o correio de Roma tinha perdido a noção da urgência. O tempo ia‑se‑lhes a averiguar se o prisioneiro tinha umbigo, se o seu dialecto tinha alguma coisa a ver com o aramaico, se podia caber muitas vezes na ponta dum alfinete, ou se não seria simplesmente um norueguês com asas. Aquelas cartas de parcimónia teriam ido e vindo até ao fim dos séculos se um acontecimento providencial não tivesse posto um fim às tribulações do pároco.
Sucedeu que, por esses dias, entre muitas outras atracções das feiras ambulantes do Caribe, levaram ao povoado o espectáculo triste da mulher que se tinha convertido em aranha por ter desobedecido a seus pais. A entrada para a ver não só custava menos que a entrada para ver o anjo, mas ainda permitiam fazer‑lhe toda a espécie de perguntas sobre a sua absurda condição e examiná‑la pelo direito e pelo avesso, de maneira que ninguém pusesse em dúvida a veracidade do horror. Era uma tarântula espantosa do tamanho de um carneiro e com a cabeça de uma donzela triste. Porém, o mais aflitivo não era a sua aparência de disparate, mas a sincera aflição com que contava os pormenores da sua desgraça; sendo quase uma criança, tinha‑se escapado de casa dos seus pais para ir a um baile, e, quando regressava pelo bosque, depois de ter dançado toda a noite sem autorização, um trovão pavoroso abriu o céu em duas metades e por aquela greta saiu o relâmpago de enxofre que a converteu em aranha. O seu único alimento eram as bolinhas de carne moída que as almas caritativas quisessem deitar‑lhe na boca. Semelhante espectáculo, carregado de tanta verdade humana e de tão temível castigo, tinha de derrotar, sem premeditação, o de um anjo despeitoso que mal se dignava olhar para os mortais. Além disso, os raros milagres que se atribuíam ao anjo revelavam uma certa desordem mental, como o do cego que não recuperou a vista mas a quem apareceram três dentes novos, o do paralítico que não pôde andar mas esteve quase a ganhar a lotaria e o do leproso a quem nasceram girassóis nas feridas. Aqueles milagres de consolação, que mais pareciam divertimentos de troça, já tinham enfraquecido a reputação do anjo quando a mulher convertida em aranha acabou de a aniquilar.
Foi desta maneira que o padre Gonzaga se curou para sempre das insónias e o pátio de Pelayo voltou a ficar tão solitário como nos tempos em que choveu três dias e os caranguejos andavam pelos quartos.
Os donos da casa não tiveram nada que lamentar. Com o dinheiro arrecadado construíram uma mansão de dois andares, com balcões e jardins e com muros muito altos, para que não entrassem os caranguejos do Inverno, e com barras de ferro nas janelas, para que não entrassem os anjos. Pelayo instalou, além disso, uma criação de coelhos muito perto da povoação, renunciando para sempre ao seu mau emprego de aguazil, e Elisenda comprou uns sapatos acetinados com saltos altos e muitos vestidos de seda furta‑cor, como os que usavam as senhoras mais categorizadas nos domingos daqueles tempos. O galinheiro foi a única coisa que não mereceu atenção. Se alguma vez o lavaram com creolina e nele queimaram as lágrimas de mirra, não foi para prestar honras ao anjo, mas para conjurar a pestilência de esterqueira, que andava como um fantasma por toda a parte e estava a tornar velha a casa nova. Ao princípio, quando o menino começou a andar, tiveram cuidado para que não estivesse muito perto do galinheiro. Mas depois foram‑se esquecendo do temor e acostumando‑se à pestilência, e antes que o menino mudasse os dentes tinha‑se habituado a brincar dentro do galinheiro, cujos alambres apodrecidos caíam aos bocados. O anjo não foi menos desabrido para com ele do que para com o resto dos mortais, mas suportava as infâmias mais engenhosas com uma mansuetude de cão sem ilusões. Ambos contraíram a varicela ao mesmo tempo. O médico que tratou o menino não resistiu à tentação de auscultar o anjo e encontrou‑lhe tantos sopros no coração e tantos ruídos nos rins que não lhe pareceu possível que estivesse vivo. O que mais o assombrou, contudo, foi a lógica das suas asas. Pareciam tão naturais naquele organismo completamente humano que não podia compreender‑se porque não as tinham também os outros homens.
Quando o menino foi à escola, havia muito tempo que o sol e a chuva tinham desmantelado o galinheiro. O anjo andava a arrastar‑se por aqui e por ali, como um moribundo sem dono. Expulsavam‑no a vassouradas de um quarto e um momento depois encontravam‑no na cozinha. Parecia estar em tantos lugares ao mesmo tempo que chegaram a pensar que se desdobrava, que se repetia a si mesmo por toda a casa, e a exasperada Elisenda gritava, fora de si, que era uma desgraça viver naquele inferno cheio de anjos. Mal podia comer, os seus olhos de antiquário tinham‑se‑lhe tornado tão turvos que andava a tropeçar nas vigas que sustentavam o telhado e já não lhe restavam senão os ráquis pelados das últimas penas. Pelayo atirou‑lhe para cima uma manta e fez‑lhe a caridade de o deixar dormir no alpendre, e só então repararam que passava a noite com febres, delirando, em tartamudeios de norueguês velho. Foi essa uma das poucas vezes em que se alarmaram, porque pensavam que ia morrer e nem sequer a vizinha sábia tinha podido dizer‑lhes o que se fazia com os anjos mortos.
No entanto, não só sobreviveu ao seu pior Inverno como até pareceu melhor com os primeiros sóis. Permaneceu imóvel durante muitos dias no canto mais afastado do pátio, onde ninguém o visse, e em princípios de Dezembro começaram a nascer‑lhe nas asas umas penas grandes e duras, penas de passarão velho, que mais pareciam um novo percalço da decrepitude. Mas ele devia conhecer a razão dessas mudanças, porque tinha todo o cuidado para que ninguém as notasse e para que ninguém ouvisse as canções de navegantes que às vezes cantava sob as estrelas.
Uma manhã, Elisenda estava a cortar rodelas de cebola para o almoço, quando um vento que parecia do alto mar se meteu na cozinha. Então assomou‑se à janela e surpreendeu o anjo nas primeiras tentativas do voo. Eram tão desajeitadas que abriu com as unhas um sulco de arado nas hortaliças e esteve quase a deitar abaixo o alpendre, com aqueles adejos indignos que escorregavam na luz e não encontravam apoio no ar. Mas conseguiu ganhar altura. Elisenda exalou um suspiro de alívio, por ela e por ele, quando o viu passar por cima das últimas casas, sustentando‑se de qualquer maneira com um agourento esvoaçar de abutre senil. Continuou a vê‑lo até ter acabado de cortar a cebola, e continuou a vê‑lo até quando já não era possível que o pudesse ver, porque nesse momento já não era um estorvo na sua vida, mas um ponto imaginário no horizonte do mar."
                                                                    Gabriel García Márquez, 1968
Gabriel Garcia Marquez, in Doze Contos Peregrinos, Editora Record, 1992

domingo, 30 de março de 2025

Ao Domingo Há Música

 

Amar é a gente querer se abraçar com um pássaro que voa.
 João Guimarães Rosa, "Do diário em Paris"


Quando o desamor se alastra no mundo e as guerras  se desenvolvem em ódio e constante  crueldade,  é na convocação do amor que se deve apostar.  A Música sempre o celebrou. É através dela que, neste domingo, o  convocamos e relembramos  grandes  cantores da língua francesa. 

 

Pierre Bachelet, em Elle est d'ailleurs (Lyrics video).
Serge Reggiani, em  Le temps qui reste . Letra: Jean-Loup Dabadie .  Música: Alain Goraguer.
 
Charles Aznavour , em Hier Encore (Official Music Video).
 
Jacques Brel, em  Ne me quitte pas (Official Lyric Video).
 
Céline Dion, na talentosa interpretação da célebre canção de Edth Piaf de 1950 (Letra de Edith Piaff e Música de Marguerite Monnot)   Hymne à l'amour , nos jogos Olímpicos de Paris 2024 .
E Johnny Hallyday, que foi um dos mais talentosos cantores franceses, na icónica canção Que je t’aime
Quand tes cheveux s'étalent Comme un soleil d'été Et que ton oreiller Ressemble aux champs de blé Quand l'ombre et la lumière Dessinent sur ton corps Des montagnes, des forêts Et des îles au trésor Que je t'aime, que je t'aime, que je t'aime Que je t'aime, que je t'aime, que je t'aime Quand ta bouche se fait douce Quand ton corps se fait dur Quand le ciel dans tes yeux D'un seul coup n'est plus pur Quand tes mains voudraient bien Quand tes doigts n'osent pas Quand ta pudeur dit non D'une toute petite voix Que je t'aime, que je t'aime, que je t'aime Que je t'aime, que je t'aime, que je t'aime Quand tu ne te sens plus chatte Et que tu deviens chienne Et qu'à l'appel du loup Tu brises enfin tes chaînes Quand ton premier soupir Se finit dans un cri Quand c'est moi qui dit non; Quand c'est toi qui dit oui Que je t'aime, que je t'aime, que je t'aime Que je t'aime, que je t'aime, que je t'aime Quand mon corps sur ton corps Lourd comme un cheval mort Ne sait pas, ne sait plus S'il existe encore Quand on a fait l'amour Comme d'autres font la guerre Quand c'est moi le soldat Qui meurt et qui la perd Que je t'aime, que je t'aime, que je t'aime Que je t'aime, que je t'aime, que je t'aime

sábado, 29 de março de 2025

O Amor

 O amor  
por Marguerite Duras
«Um homem.
Um homem de pé, olhando: a praia, o mar. O mar está baixo, clamo, a estação indefinida, o tempo, lento.
O homem está em cima de um estrado de madeira, ao longo da praia.
Veste um fato sombrio. Tem um rosto distinto.
Os seus olhos são claros.
O homem não se mexe: olha.
O mar, a praia, há poças, superfícies isoladas de água morta.
Entre o homem que olha e o mar, junto do mar, alguém caminha. Um outro homem. Veste um fato sombrio. Mas a esta distância não se lhe distingue o rosto. Caminha, afasta-se e volta, torna a partir, a voltar, num caminhar longo, monótono.
Algures na praia, à direita daquele que olha, um movimento luminoso: uma poça esvaindo-se, uma fonte, um rio, rios, ininterruptamente, alimentam o sorvedouro de sal.
À esquerda, uma mulher de olhos fechados. Sentada.
O homem que caminha olha, olha apenas a areia à sua frente. Tem um andar incessante, regular, longínquo.
O triângulo fecha-se com a mulher de olhos fechados, sentada contra um muro que separa a praia do fim da cidade.
O homem que olha está entre esta mulher e o homem que caminha junto ao mar.
Como o homem caminha, persistente, com igual lentidão, o triângulo forma-se e deforma-se, sem nunca se quebrar.
Este homem tem o passo regular dum prisioneiro.
O dia morre.
O mar, o céu ocupam o espaço. Ao longe, o mar já está oxidado pela luz obscura. E o céu também.
Três. São três pessoas na luz obscura, na rede lenta.”
Marguerite Duras,
in  O amor, Editorial Presença, Abril de 1999 
Marguerite Duras. Foto de Ralph Gibson

Sobre a autora
"Marguerite Duras nasceu em Gia Dinh, na  Indochina  (agora  Vietnam),  em  1914,  onde  passou  a  infância  e  a adolescência.  A autora irá ficar profundamente marcada pela paisagem e pela vida da antiga colónia francesa, frequentemente referidas na sua obra literária.
O pai morreu quando tinha quatro anos de idade, e a  mãe, uma professora, lutou arduamente para criar três  filhos  sozinha.
Durante   a  adolescência,  Marguerite  Duras  teve  um  caso  com  um  homem  chinês  rico  e  retorna mais tarde a este período nos seus livros  (nomeadamente  O Amante e  O Amante da China do Norte). Aos 17 anos viajou para França, onde estudou Direito e Ciência Política no Sorbonne, formando-se em 1935.
Durante a II Guerra Mundial, Marguerite Duras tomou parte da Resistência Francesa, filiando-se também no partido comunista. Publica os  primeiros livros em 1943 e 1944, Os Imprudentes e A Vida Tranquila, respectivamente. A partir de 1959 começa também a escrever argumentos para o cinema, dos quais Hiroshima meu amor é sem dúvida o mais conhecido e marcante.  Em 1950, com Uma barragem contra o Pacífico, Duras esteve muito próxima de ganhar o Prémio Goncourt. É, no entanto,  apenas trinta anos depois que a injustiça lhe é reparada, ganhando o prémio por unanimidade com o romance O Amante. É uma autora muito fértil, com uma obra literária vastíssima, desde os romances aos argumentos cinematográficos. Afirma-se sempre com um estilo de beleza inconfundível, num tom duro e denso, por vezes até um pouco inacessível, mas sempre numa expressão profundamente genuína e humana das paixões, grandezas e misérias da vida. Marguerite Duras é por excelência uma escritora da condição humana, mas contudo não procura utilizar a escrita como forma de redenção e/ou salvação; antes, a escrita é uma exigência urgente, um valor supremo em que reside, uma vontade bruta de falar de si. As suas obras estão repletas de descrições belíssimas e soberbamente envolvidas na ambiência exótica da paisagem oriental, não sem deixarem reconhecer uma intensidade angustiada e desesperada, oriunda de uma constante luta da autora com as questões do amor e da morte."
O amante da China do Norte

«É um livro.
É um filme.
É a noite.

A voz a falar aqui é a voz escrita do livro.
Uma voz cega. Sem rosto.
Muito nova.
Silenciosa.

É uma rua a direito. Iluminada por candeeiros a gás.
Empedrada, dir-se-ia. Antiga.
Ladeada por árvores gigantes.
Antiga.
Marguerite Duras

sexta-feira, 28 de março de 2025

África


África minha

A África tem isto: é enorme:
ali, nunca se fica apertado.
Mesmo quando parece que ela dorme,
há nela um grande fogo agastado!

A diferença entre ser grande e pequeno
é a mesma que entre oceano e rio:
um ruge e o outro corre ameno,
o rio, manso, o oceano, bravio.

A África não tem medo do frio,
decerto, por estar mais perto do sol:
há nela grandeza, calor e brio

e não se rende a romano ou mongol!
A África nasceu antes do resto,
aqui o digo, juro e atesto!
03.02.2023
Eugénio Lisboa, in Soneto modo de usar, Guerra & Paz Editores, Abril de 2024, p 131

 
Africa 4K - Scenic Relaxation Film With African Music
Nas palavras dos produtores deste magnifico filme "não há lugar na Terra mais selvagem, belo e intrigante do que África! Desfrute deste filme de relaxamento cénico em 4K com os incríveis países de África. Do Serengeti, na Tanzânia, às Pirâmides do Egito, África alberga alguns dos destinos mais belos, históricos e com maior vida selvagem do mundo. Este é um dos meus vídeos favoritos que já fiz e mal posso esperar para o partilhar convosco. Qual é o seu lugar favorito em África? 
Um agradecimento especial a Martin Harvey por ajudar a filmar grande parte deste vídeo, ele tem alguns dos melhores vídeos africanos ."

quinta-feira, 27 de março de 2025

Frase do dia

Frase do dia, proposta por Eugénio Lisboa
Um pensamento para esta guerra
 
More than an end to war, we want an end to the beginning of all wars, yes, an end to this brutal, inhuman and thoroughly unpractical method of settling differences between governments.
 
(Mais do que um fim da guerra, desejamos um fim do começo de todas as guerras, sim, um fim deste método brutal, inumano e nada prático de resolver diferenças entre governos.)
Franklin D. Roosevelt

Nota de LP: Esta frase foi proposta e remetida  por Eugénio Lisboa a Livres Pensantes, em 1 e Novembro de 2023. Republica-se pela validade que encerra e pela profunda argúcia que sempre regulou a visão do mundo por Eugénio Lisboa.

quarta-feira, 26 de março de 2025

Leonard Cohen

Leonard Cohen
"Com a  sua singular e sempre extraordinária   voz rouca e grave, Leonard Cohen  lançou o  último álbum "You want it darker" a 21 de Outubro de 2016, pela Columbia Records , 17 dias antes da sua morte , no qual reflectia sobre a sua própria mortalidade. Nascido em Montréal a 21 de Setembro de 1934, numa família de origem judaica, Leonard Cohen teve uma infância marcada pelo morte do pai, quando tinha nove anos. Estudou Inglês na Universidade de McGill e cedo se apaixonou pela poesia de García Lorca. 
Desde os anos sessenta, foi publicando  onze livros de poemas, dois romances e dezassete álbuns musicais que fizeram dele,  um dos mais conhecidos e influentes artistas , no Canadá, nos Estados Unidos e na Europa. Muitas vezes,  foi comparado a Bob Dylan pela profundidade de suas letras. 
"Leonard Cohen foi um músico sem igual, cuja obra assombrosa e original alcançou gerações de fãs e artistas", destacou a gravadora Sony Music. 
"O seu extraordinário talento teve um impacto profundo num número incalculável de cantores e compositores e sobre a cultura em geral", afirmou a Academia dos Grammys, que concedeu em 2010 um prémio especial a Cohen pelo conjunto de sua carreira. 
Em 2011 foi o vencedor do Prémio Príncipe das Astúrias das Letras.
Cohen morreu a 7 de Novembro de 2016, aos 82 anos, em sua casa em Los Angeles.
A morte foi anunciada a 10 de Novembro. Deixou dois filhos e dois netos.
Numa entrevista concedida  à  revista New Yorker, cerca de um mês antes, Cohen disse que estava preparado para a sua morte, embora garantisse que ainda tinha livros, canções e letras para terminar."

Leonard Cohen, em  Hallelujah (Live In London). 
Hallelujah foi lançada, pela primeira vez, no álbum de estúdio de Cohen, Various Positions, em 1984 . Ao longo dos anos, foi interpretada por quase 200 artistas em várias línguas.
.  
Leonard Cohen, em  Anthem (Live in London)
 
Leonard Cohen, em   Tower Of Song (Live in London).
 
Leonard Cohen, em  Dance Me To The End Of Love (Live in London).
   
Leonard Cohen , em  Who By Fire (Live in London).
 

segunda-feira, 24 de março de 2025

Os meus romances preferidos

Os meus romances preferidos
por Luiz Ruffato
“Não sei quando começou a necessidade de fazer listas, mas posso imaginar o nosso antepassado mais remoto riscando na parede da caverna, à lua de uma tocha, signos que indicavam quanto de alimento havia sido estocado para o inverno que se aproximava ou, como somos competitivos, a relação entre os nomes da tribo e o número de caças abatidas por cada um deles.
Se formos propor uma hermenêutica acerca do tema, talvez possamos afirmar que existem dois tipos de listas: as necessárias e as inúteis, sendo que em muitos casos, dialeticamente, as necessárias tornam-se inúteis e as inúteis, necessárias. Tomemos dois exemplos. Todo mês, enumero as coisas que faltam na despensa de minha casa antes de me dirigir ao supermercado: essa lista arrolo na categoria das necessárias. Por outro lado, há pessoas que anotam as suas metas para o ano que se inicia, começar a fazer ginástica, parar de fumar, cortar em definitivo o açúcar, ser mais solidário, menos intolerante: essa, elenco na categoria das inúteis...
Feitas as compras, a lista do supermercado, necessária, torna-se então inútil. A lista contendo nossos desejos de sermos melhores para nós mesmos e para os outros, embora inútil, pois dificilmente as cumprimos, convertem-se em necessárias, porque estabelecem um vínculo com o futuro, e projectarmo-nos é uma forma de vencer a morte.
Tudo isso, para justificar o que se segue. Ninguém me perguntou, mas resolvi organizar uma lista dos melhores romances que li em minha vida – escolhi o número vinte, não por motivos místicos, mas porque talvez, pela amplitude, alinhave, mais que preferências intelectuais, uma história afectiva das minhas leituras. Enquadro-a na categoria das listas inúteis, mas quem sabe, se consultada, municie discussões, já que toda escolha é subjectiva e aleatória, ou, na melhor das hipóteses, suscite curiosidade a respeito de um título ou de um autor. Ocorresse isso, me daria por satisfeito.

Os 20 melhores romances, por ordem alfabética:
Anna Karenina, de Liev Tolstói (1828-1910) – Publicado em 1877, traça um painel da sociedade russa do século XIX. Tem a melhor frase de abertura de uma narrativa de ficção, verdadeira aula de teoria literária: “Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira”.

Berlin Alexanderplatz, de Alfred Döblin (1878-1957) – Lançado em 1929, acompanha a trajectória do desajustado Franz Biberkopf pelas ruas de uma Berlim caótica do período entre guerras,. A vertigem de um mundo em colapso expressa-se de maneira magnífica numa narrativa que se quer, ao mesmo tempo, objectiva e subjectiva.

Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez (1927-2014) – Em 1967, o povoado de Macondo, situado num país qualquer da América Hispânica, torna-se universal. Ali, se desenvolve a saga dos Buendía, um ciclo interminável de histórias cujos protagonistas vivem no ténue limite entre real e fantástico. 

Dom Quixote, de Miguel de Cervantes (1547-1616) – Composto por dois tomos, o primeiro lançado em 1605 e o segundo dez anos depois, trata-se da obra mais completa da história da literatura universal. Paródia dos romances de cavalaria, ilustra à perfeição o eterno embate entre racionalismo e idealismo. 

Enquanto agonizo, de William Faulkner (1897-1962) – Embora não seja a mais conhecida das obras do autor, este romance, publicado em 1930, lança luz sobre os Bundren, família pobre do sul dos Estados Unidos, que busca cumprir o último desejo da matriarca. 

Ilusões Perdidas, de Honoré de Balzac (1799-1850) – Lucien de Rubempré é um dos mais fascinantes personagens da literatura. Intelectual provinciano, busca firmar-se em Paris no início do século XIX. Egoísta e arrogante, mas também ingênuo, vê seus sonhos ruírem, após descartado pela mesma sociedade que o adotara. Publicado em 1837, possui seis diferentes traduções disponíveis.

Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis (1839-1908) – Dedicado “ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver”, este romance, de 1881, marca a entrada de Machado de Assis no rol dos maiores autores da literatura universal. Cínico e sarcástico, Brás Cubas fala ao Brasil de todos os tempos. Há inúmeras edições disponíveis, das excelentes às péssimas.

Moby Dick, de Herman Melville (1819-1891) – Publicado em 1851, este verdadeiro compêndio de possibilidades narrativas possui uma dimensão épica que nos remete à própria criação do mundo – o tema ultrapassa, em muito, a perseguição da grande baleia branca pelo capitão Ahab. 

No coração das trevas, de Joseph Conrad (1857-1924) – Neste libelo anticolonialista, lançado em 1902, acompanhamos o narrador Charles Marlow penetrando no âmago da África Central em busca de um enigmático personagem chamado Kurtz. O que ele encontra é apenas o horror. 

O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald (1896-1940) – Romance da era do jazz, publicado em 1925, mostra os bastidores da vida luxuosa da classe média endinheirada da Costa Leste dos Estados Unidos. Por trás da futilidade e da loucura, a solidão e o vazio que prenunciam a tragédia.

O leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa (1896-1957) – Somente publicado dois anos após a morte do autor, este é o depoimento do fim de uma época, a da decadente aristocracia refinada e parasita. Tem uma das frases mais emblemáticas do exercício da política: “Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude”. 

O monte dos vendavais, de Emily Brontë (1818-1848) – O amor entre a complicada Cathy Earnshaw e o rancoroso Heathcliff ultrapassa as convenções sociais, o tempo e até mesmo a morte. Publicado em 1847, é a narrativa da paixão cega e da vingança a qualquer preço, desenvolvida nos grotões de uma Inglaterra selvagem. Disponível em pelo menos sete versões diferentes.
O mundo se despedaça, de Chinua Achebe (1930-2013) – A chegada do homem branco a uma remota área habitada pela etnia ibo, às margens do rio Níger, desestabiliza a sociedade local, de religião anímica e regras próprias. A introdução do cristianismo desintegra rapidamente algo que durava desde tempos imemoriais. A edição original é de 1958. 

O processo, de Franz Kafka (1883-1924) – Romance antecipatório da aniquilação da subjetividade, que caracterizaria o século XX. A força de sua ficção engendrou até mesmo um adjetivo, kafkiano, para designar situações absurdas. 

O vermelho e o negro, de Stendhal (1783-1842) – Egoísta e ambicioso, Julien Sorel usa, sem escrúpulos, seu charme e simpatia para galgar um lugar na exclusivista sociedade francesa pós-napoleônica, com resultados trágicos. Lançado em 1830, é um monumento do realismo psicológico. .

Oblómov, de Ivan Goncharóv (1812-1891) – Publicado em 1859, é um retrato da derrocada da sociedade russa. O aristocrata Iliá Ilitch Oblómov, incapaz de tomar qualquer atitude prática na vida, até mesmo de se levantar da cama, assiste seu mundo sucumbir à inércia e à indiferença. 

Os Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski (1821-1881) – Lançado em 1879, narra a complexa relação do avaro Fiódor Karamázov com seus três filhos: Dmitri, o primogênito, e seus meio-irmãos, o intelectualizado Ivan e o místico Aleksiei. Esse romance antecipa vários temas que seriam depois discutidos pela psicanálise. 

Pedro Páramo, de Juan Rulfo (1917-1986) – “Vim a Comala porque me disseram que aqui vivia meu pai, um certo Pedro Páramo”. Comala e Pedro Páramo, aos poucos, se fundem nesta narrativa a um só tempo realista e fantástica, construída em fragmentos aparentemente desconexos. Lançado em 1955, é editado no Brasil pela Record, com tradução de Eric Nepomuceno.


Uma Viagem sentimental,  de Laurence Sterne (1713-1768) – Publicado em 1768, é uma narrativa satírica que coloca em xeque a própria forma do romance. Inicia-se abruptamente e termina com uma vírgula, sem sequer alcançar a Itália, objectivo aparente do personagem, se levarmos a sério o título. Tem uma edição pela Antígona, com tradução de Manuel Portela.
Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift (1667-1745) – Numa época em que pululavam livros de naturalistas que descreviam terras desconhecidas, o autor imagina seu personagem, Lemuel Gulliver, visitando lugares improváveis, criando, assim, uma poderosa sátira sobre a sociedade europeia. Tem edição portuguesa pela Relógio D'Água, com tradução de  Luzia Maria Martins.”
Luiz Ruffato,  em artigo do Jornal   El País, de  2.12.2014

domingo, 23 de março de 2025

Ao Domingo Há Música











 









One Love, One Heart
 Let's get together and feel all right
 As it was in the beginning (One Love)
 So shall it be in the end (One Heart)
 Give thanks and praise to the Lord and I will feel all right
 One more thing!

Chegar à Jamaica  é sentir que não se está longe de África . A ilha onde tudo se compõe para nos levar,  de imediato , a qualquer lugar daquela África que nos seduz à chegada. As cores, a terra , o calor húmido dos dias de chuva e as sorridentes  gentes que enchem  as ruas de vivaz ruído , em constante  e sobrevivente labor.  É  o  trânsito pulando e seguindo em tácita desordem, para  fazer  da rotina uma aventura diária. É a  beleza luxuriante das montanhas  que rodeiam as cidades, num abraço largo de mistério . São as  frondosas florestas ,  com recônditos povoados , traçados pelas mãos laboriosas de quem lá habita .
E o mar. O mar que  se enrola e banha a costa  , em aconchego permanente,  a mimar as praias num amor declarado.  O mar de  mil telas, de um azul translúcido  em infindas gradações , que só o caribenho oceano permite . O mar que traz e leva e se perde em cada olhar.   
É assim a Jamaica.

Eis Bob Marley, o ícone da Jamaica,  que levou ao mundo a sua voz e projectou, para sempre, esta bela ilha da América Central.
Bob Marley , em No Woman, No Cry (Live At The Lyceum, London 1975) official music video.
  
 Bob Marley, em One Love (Extended) 
 
 Bob Marley  , em The Heathen (Live At The Rainbow Theatre, London  4th June/ 1977.